A emoção de encontrar um antepassado perdido em um registro paroquial do século XIX ou conectar-se com um primo distante via DNA é incomparável. No entanto, nessa busca apaixonada pelas nossas raízes, é fácil cair em armadilhas metodológicas que podem comprometer a veracidade de anos de pesquisa.
Construir uma árvore genealógica é como construir uma casa: se a fundação tiver falhas, toda a estrutura corre perigo.
Para ajudar você a blindar sua pesquisa, compilamos os erros mais críticos na genealogia e as estratégias profissionais para evitá-los.
1. O fenômeno “Copiar e Colar” (Smart Matches)
Com a facilidade de plataformas como FamilySearch, Ancestry e MyHeritage, surgem “Dicas de Árvore” ou “Smart Matches” constantemente. O erro fatal do iniciante é aceitar essas sugestões e importar dados de árvores públicas sem verificação.
- O problema: Muitas árvores online contêm erros crônicos, datas inventadas ou ligações familiares baseadas em “achismos”. Ao copiar, você cria um “vírus genealógico”, perpetuando o erro.
- A solução: Trate as árvores online como pistas, nunca como fatos. Adote a regra de ouro: só adicione uma informação se você visualizar o documento original (certidão, registro de batismo, censo) que comprove aquele dado.
2. Confiar cegamente na grafia dos sobrenomes
Muitos pesquisadores travam suas buscas porque procuram apenas pela grafia atual do sobrenome da família (ex: “Souza” com Z).
- O problema: A padronização ortográfica é recente. No passado, os escrivães escreviam foneticamente (“de ouvido”). Um “Souza” poderia ser registrado como “Sousa”, “Soza”, “Suza” ou até “Sola” dependendo da caligrafia.
- A solução: Seja flexível. Ao pesquisar em bancos de dados, use caracteres curinga (como
*ou?) e a busca fonética.
Dica de especialista: Considere a adaptação de nomes estrangeiros. Um alemão ‘Schmidt’ pode ter virado ‘Ximite’. Um italiano ‘Giuseppe’ pode ter vivido a vida toda no Brasil registrado como ‘José’. Tente pensar como o escrivão brasileiro da época.
3. A armadilha dos homônimos
Encontrar um “Antônio da Silva” nascido em 1890 na cidade certa pode parecer um milagre, mas cuidado: nomes comuns geram confusões comuns.
- O problema: Em cidades pequenas, é frequente haver primos com o mesmo nome e idade semelhante, batizados em homenagem ao mesmo avô.
- A solução: Utilize a Tríade de Verificação: Nome + Data + Local. Nunca confirme uma identidade sem conferir os nomes dos pais e, se possível, dos avós. Isso é chamado de triangulação de dados.
Atenção: Fique atento aos padrões de nomenclatura. Um comum é assumir que o sobrenome do meio é sempre o da mãe: em registros portugueses antigos, a ordem dos sobrenomes variava muito e não seguia a regra rígida de hoje. Entenda por que as pessoas mudavam de sobrenome antigamente.
4. Pular gerações: a síndrome da pressa
A tentação de ligar-se a uma figura histórica famosa ou a um imigrante pioneiro pode fazer o pesquisador “saltar” etapas vitais.
- O problema: Conectar seu avô diretamente a um suposto bisavô sem ter a documentação do pai no meio do caminho cria uma “Genealogia de Fantasia”.
- A solução: Vá do conhecido para o desconhecido. Você precisa provar documentalmente que A é filho de B, e que B é filho de C. Sem elos perdidos.
5. Ignorar os colaterais (Irmãos e Tios)
Muitos iniciantes focam apenas na “linha direta” (pedigree), ignorando os irmãos dos antepassados.
- O problema: Às vezes, o registro do seu antepassado direto está ilegível, destruído ou incompleto (sem o nome dos avós).
- A solução: Pesquise a família estendida! Frequentemente, o registro de casamento de um irmão contém a cidade de origem correta da família ou o sobrenome da mãe que faltava na certidão do seu antepassado direto.
6. Não citar as fontes (o Erro Irreversível)
“Eu sei que essa data está certa, eu vi em algum lugar ano passado.” Se você já disse essa frase, sua pesquisa está em risco.
- O problema: Uma árvore sem fontes é apenas folclore. Sem a fonte, não há como revisar a informação quando surgirem dados conflitantes no futuro.
- A solução: Adote o padrão GPS (Genealogical Proof Standard). Anote a fonte imediatamente: “Livro de Batismos 4, Pág. 23, Paróquia X, consultado em [Data]”.
7. Acreditar em lendas familiares como verdade absoluta
Histórias como “somos descendentes de uma princesa indígena” ou “perdemos uma enorme fortuna” são comuns.
- O problema: A memória oral é preciosa, mas sofre distorções pelo “telefone sem fio” das gerações.
- A solução: Use a história oral como bússola, não como mapa. Ela aponta a direção, mas cabe aos documentos confirmar o caminho. Ainda assim, não deixe de ouvir e buscar essas histórias; elas são fontes riquíssimas quando utilizadas com cuidado.
8. Erro de geografia histórica: ignorar fronteiras
Muitos pesquisadores procuram um registro na cidade atual, não o encontram e desistem.
- O problema: As fronteiras mudam. Uma cidade atual pode ter sido um distrito de outra vizinha há 100 anos.
- A solução: Estude a divisão administrativa da época. Descubra a que município, comarca ou diocese aquela vila pertencia no ano do nascimento. No Brasil, verificar a seção “História” da cidade no site do IBGE é essencial.
9. Interpretar mal os testes de DNA
Com a popularização dos testes genéticos (MyHeritage DNA, AncestryDNA, Genera), surge a ilusão da etnia.
- O problema: Focar apenas na porcentagem de etnia (ex: “sou 2% viking”) e ignorar as correspondências (matches).
- A solução: Entenda que a etnia é uma estimativa estatística. O ouro está nos Matches (primos genéticos). Eles são a prova biológica que ajuda a quebrar barreiras documentais.
10. O Anacronismo: julgar o passado com olhos de hoje
- O problema: Estranhar que uma menina de 13 anos tenha se casado em 1800, ou que primos de primeiro grau tenham se casado.
- A solução: Contextualize. Entenda o Direito Canônico e Civil da época. Casamentos endogâmicos (entre parentes) eram estratégias comuns de manutenção de patrimônio e sobrevivência social.
11. O perigo das Mudanças de Calendário
Datas podem enganar. Cuidado com a transição do Calendário Juliano para o Gregoriano.
O Detalhe Técnico: Se sua pesquisa for anterior a 1582 (países católicos como Portugal e Brasil) ou 1752 (países britânicos/EUA), houve um “salto” de dias que foram suprimidos para ajuste solar. Não corrigir isso pode fazer parecer que uma criança nasceu antes dos pais casarem.
Perguntas Frequentes sobre Pesquisa Genealógica (FAQ)
Próximos Passos
Agora que você conhece as armadilhas, que tal revisar sua árvore? Comece verificando as fontes das suas 3 últimas gerações. Se encontrar erros, não desanime: a correção é parte da jornada do genealogista.


