Pintura do século 19 mostra René Teófilo Hyacinthe Laennec, médico francês que inventou o estetoscópio (1781-1826).

13 doenças que mais mataram na história da humanidade

Este artigo reúne as 13 doenças que mais mataram na história da humanidade, em ordem decrescente. Os dados são baseados em estudos epidemiológicos publicados em periódicos como Nature, The Lancet e Science, além de relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS), dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e do Instituto de Métricas de Saúde (IHME). Para doenças antigas, os números são, por necessidade, estimativas — mas são as mais sólidas disponíveis hoje.

Uma nota metodológica importante: doenças crônicas e endêmicas (como tuberculose e malária) tendem a acumular mais mortes ao longo dos séculos do que epidemias explosivas (como a Peste Negra ou a COVID-19), que são mais dramáticas, mas mais curtas. As posições 1 a 5 desta lista são as mais consensuais entre os especialistas; as posições 6 em diante variam um pouco dependendo do critério usado.


1. Tuberculose

Estimativa total: mais de 1 bilhão de mortes nos últimos dois séculos

Se existe uma doença que mereceria o título de “maior assassina silenciosa da história”, é a tuberculose. Conhecida como “a peste branca” ou “mal do peito”, ela não chegava em ondas de pânico como a cólera ou a varíola — ela ficava. Ano após ano, geração após geração, consumia suas vítimas lentamente, o que a literatura do século XIX romantizou com tragédia involuntária.

A tuberculose é causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis e se espalha pelo ar. Estimativas do National Institutes of Health (NIH) indicam que ela foi responsável por cerca de 25% de todas as mortes de adultos na Europa durante o século XIX — uma em cada quatro.

Para pesquisadores de genealogia: Este é o termo mais frequente em certidões brasileiras antigas. Procure por “Tísica”, “Tísica Pulmonar”, “Mal do Peito”, “Fraqueza” ou “Héctica”. Se um ancestral “definhava” ao longo de meses, a tuberculose é suspeita imediata.

Fonte: Nature, OMS, National Institutes of Health (NIH).

Pôster de 1919 mostra campanha da Cruz Vermelha, nos Estados Unidos, contra tuberculose.
Pôster de 1919 mostra campanha da Cruz Vermelha, nos Estados Unidos, contra tuberculose, a líder do ranking de doenças que mais mataram na história

2. Varíola

Estimativa total: 300 a 500 milhões de mortes só no século XX; possivelmente mais de 1 bilhão na história

A varíola tinha uma característica que a tornava particularmente aterrorizante: ela não escolhia. Matava imperadores e camponeses com a mesma eficiência. Foi responsável pelo colapso demográfico das populações indígenas nas Américas após o contato com os europeus — um genocídio biológico de proporções inimagináveis. No Brasil, os surtos de varíola moldaram políticas de saúde pública até o início do século XX, culminando na famosa Revolta da Vacina de 1904.

O vírus foi erradicado em 1980 após uma campanha global de vacinação coordenada pela OMS. Até hoje, a varíola é a única doença humana a ter sido completamente eliminada.

Para pesquisadores de genealogia: Nos registros dos séculos XVIII e XIX, a causa da morte frequentemente aparece como “Bexigas” , uma referência direta às pústulas que cobriam a pele dos infectados.

Fonte: OMS, Lapham’s Quarterly.

Pintura de 1869, "A Praga em Roma", de Jules Elie Delaunay.
Pintura de 1869, “A Praga em Roma”, de Jules Elie Delaunay, retrata a Peste Antonina. Acredita-se que esta pandemia, que assolou o Império Romano durante o reinado de Marco Aurélio, tenha sido causada por varíola ou sarampo.

3. Malária

Estimativa total: centenas de milhões mortes ao longo de milênios. Algumas estimativas chegam a falar em “metade de todos os humanos que já viveram”, embora os historiadores modernos trabalhem com números mais conservadores.

A malária é transmitida pelo mosquito Anopheles e tem acompanhado a humanidade por pelo menos 50 mil anos. Para os colonizadores e imigrantes que chegavam ao interior do Brasil no século XIX, ela era muitas vezes uma sentença de morte: sem imunidade adquirida, sucumbiam às “febres” em semanas.

O que a torna diferente das outras doenças desta lista é sua constância. Ela nunca explodiu em uma única pandemia devastadora; simplesmente nunca parou de matar, especialmente crianças.

Para pesquisadores de genealogia: Nos registros rurais brasileiros, procure por “Maleita”, “Sezão” (ou “Sezões”), “Febre Palustre” ou “Impaludismo”.

Fonte: OMS, Nature, History of Vaccines.

Veja também: Causas de mortes antigas: o significado de termos médicos curiosos

4. Sarampo

Estimativa total: cerca de 200 milhões de mortes nos últimos 150 anos

Antes da vacina, desenvolvida em 1963, o sarampo matava aproximadamente 2,6 milhões de pessoas por ano em todo o mundo. Era virtualmente inevitável: quase toda criança era infectada em algum momento, e uma parcela significativa não sobrevivia.

Para genealogistas, o sarampo é a principal explicação para a alta mortalidade infantil que aparece em quase todas as famílias antigas. Ele age rápido — quando entra em uma família, pode levar vários filhos em dias.

Para pesquisadores de genealogia: Geralmente aparece registrado como “Sarampo” mesmo. Atenção: se você encontrar vários filhos de um mesmo casal falecendo com dias ou semanas de diferença, o sarampo (ou a difteria) é o suspeito mais provável.

Fonte: OMS, Vaccine Knowledge Project (Oxford).

5. Peste Bubônica (Peste Negra)

Estimativa total: cerca de 200 milhões de mortes (somando a Praga de Justiniano, a Peste Negra medieval e os surtos do século XIX)

Em termos de impacto relativo, nenhuma doença da história chegou perto da Peste Negra: em apenas alguns anos no século XIV, ela eliminou entre 30% e 50% da população europeia. Cidades inteiras foram varridas. Aldeias abandonadas. A estrutura social, econômica e religiosa da Europa jamais voltou a ser a mesma.

Causada pela bactéria Yersinia pestis e transmitida por pulgas de ratos, ela não foi um evento único — surtos menores continuaram por séculos após a catástrofe medieval.

Para pesquisadores de genealogia: Registros medievais são raros no Brasil, mas em surtos mais tardios (como o de Porto Alegre em 1899) a causa pode aparecer como “Peste”, “Bubão” ou “Febre Pestilencial”.

Fonte: History of Vaccines, Encyclopedia Britannica.

Pintura histórica retrata a Peste Negra
Pintura histórica retrata a Peste Negra

6. Doenças diarreicas infecciosas

Estimativa histórica: dezenas a centenas de milhões (sem número consensual fechado)

Diferente das epidemias que chegam com nome próprio e data marcada, as doenças diarreicas matam pela persistência. Antes do saneamento básico, da terapia de reidratação oral e dos antibióticos, a desidratação causada por infecções intestinais era a causa de morte mais comum no primeiro ano de vida em praticamente todo o mundo.

Hoje, o Global Burden of Disease Study estima que ainda causem entre 1,3 e 1,6 milhão de mortes por ano — majoritariamente crianças pequenas em regiões sem acesso a água tratada.

Fontes: Global Burden of Disease Study (IHME); OMS; UNICEF.

7. Gripe Espanhola (Influenza)

Estimativa total: 50 a 100 milhões de mortos em 24 meses (1918–1919); 100 a 200 milhões somando todas as pandemias e gripe sazonal ao longo dos séculos

A Gripe Espanhola de 1918 é o evento pandêmico mais letal da história moderna. Para dar uma dimensão: ela matou mais pessoas em 24 semanas do que a AIDS matou em 24 anos. E, ao contrário da maioria das gripes, tinha uma peculiaridade perturbadora: matava preferencialmente jovens adultos saudáveis entre 20 e 40 anos — provavelmente por uma resposta imune exagerada do próprio organismo.

No Brasil, a pandemia vitimou milhares e ficou marcada também pela morte do presidente eleito Rodrigues Alves, que faleceu antes de tomar posse do seu segundo mandato.

Para pesquisadores de genealogia: Procure por um aumento súbito de óbitos na família entre outubro e dezembro de 1918. Nos registros, pode aparecer como “Influenza”, “Gripe Epidêmica” ou, nos casos de complicações, “Pneumonia” ou “Congestão Pulmonar”.

Fonte: CDC; OMS; Lapham’s Quarterly.

Fotografia histórica mostra pacientes em tratamento na Gripe Espanhola, em Washington, Estados Unidos. Fonte: Library of Congress Prints and Photographs Division
Fotografia histórica mostra pacientes em tratamento contra Gripe Espanhola, em Washington, Estados Unidos, 1918. Fonte: Library of Congress Prints and Photographs Division

8. HIV/AIDS

Estimativa total: aproximadamente 40 a 45 milhões de mortes

A pandemia de HIV começou a ganhar visibilidade nos anos 1980 e ainda não terminou. O vírus ataca progressivamente o sistema imunológico, tornando o corpo incapaz de combater infecções que normalmente seriam inofensivas. Continua sendo um grande problema de saúde pública, especialmente na África Subsaariana.

Diferente das outras doenças desta lista, o HIV é uma crise do presente — e continua exigindo resposta global ativa.

Fonte: UNAIDS, OMS.

9. Cólera

Estimativa total: mais de 40 milhões de mortes (somando as 7 grandes pandemias desde 1817)

A cólera é uma doença aguda causada pela bactéria Vibrio cholerae, transmitida por água e alimentos contaminados. Ela era, essencialmente, uma doença da urbanização sem infraestrutura: quanto mais as cidades cresciam sem saneamento, mais a cólera matava.

Sua velocidade era aterrorizante: um paciente podia estar saudável pela manhã e morto por desidratação extrema à noite. Por isso, os surtos de cólera funcionam como marcos históricos muito precisos em certidões de óbito: quando ela chegava a uma cidade, os registros paroquiais transbordavam em poucas semanas.

Para pesquisadores de genealogia: Em períodos de epidemia (como a grande epidemia brasileira de 1855), procure por “Cólera-morbo” ou “Colerina” nos registros.

Fonte: The Lancet; OMS.

10. Cocoliztli

Estimativa total: até 15 milhões de mortes só no México, no século XVI

Esta é a doença menos conhecida desta lista, e talvez a mais trágica em termos de proporção. O Cocoliztli foi uma série de epidemias que devastaram o México colonial após a conquista espanhola, matando entre 70% e 80% da população asteca que ainda havia sobrevivido às guerras e à varíola.

Por muito tempo, sua causa permaneceu um mistério. Um estudo de 2018 publicado na Nature Ecology & Evolution, usando análise de DNA antigo, apontou a Salmonella enterica (sorotipo Paratifi C) como principal responsável — provavelmente introduzida pelos próprios colonizadores europeus em um ambiente sem nenhuma imunidade prévia.

Fontes: Nature Ecology & Evolution, CDC, Emerging Infectious Diseases Journal.

11. COVID-19

Estimativa total: 7 a 30 milhões (7 milhões de mortes confirmadas; estimativa de excesso de mortalidade chega a 30 milhões)

A pandemia mais recente desta lista, causada pelo vírus SARS-CoV-2. Embora seu impacto global tenha sido imenso e imediato, o número absoluto de mortes ainda é significativamente menor que os grandes assassinos históricos de longa duração.

O que a COVID-19 trouxe de novo foi a velocidade com que desorganizou sistemas de saúde modernos e a visibilidade sem precedentes de uma pandemia em tempo real.

Fontes: OMS, The Economist (Excess Death Model), Our World in Data.

Trabalhadores do Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro durante a epidemia de coronavírus. Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo.
Trabalhadores do Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro durante a epidemia de coronavírus. Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo.

12. Tifo (Typhus Exantemático)

Estimativa total: dezenas de milhões de mortes (o surto russo de 1918–1922, sozinho, matou aproximadamente 3 milhões)

O tifo é transmitido por piolhos em condições de higiene precária, e, por isso, sempre acompanhou guerras, prisões e crises de fome. Era literalmente chamado de “febre dos acampamentos”. Nas Guerras Napoleônicas, matou mais soldados franceses na retirada da Rússia do que o frio ou o exército inimigo.

Não teve uma única grande pandemia, mas uma presença constante por séculos na Europa, Ásia e África.

Para pesquisadores de genealogia: Atenção ao termo “Tabardilha” nos registros antigos — era o nome popular para o tifo exantemático no Brasil. Não confunda com “Febre Tifoide”, que é uma doença completamente diferente (ver abaixo).

Fontes: History of Vaccines, Microbiology Society, The Lancet.

Veja também: Onde encontrar registros de antepassados que morreram antes de 1900

13. Febre Tifoide

Estimativa total: dezenas de milhões de mortos

Apesar do nome parecido, a Febre Tifoide e o Tifo são causados por bactérias diferentes e transmitidos de formas distintas. A Febre Tifoide é causada pela Salmonella typhi e se espalha pela água e alimentos contaminados, não por piolhos.

Essa confusão não é erro seu: os próprios médicos do século XIX as confundiam, porque os sintomas se sobrepõem (febre alta, delírio, manchas vermelhas na pele). A diferenciação só foi estabelecida com precisão em meados do século XIX. Sem tratamento, a taxa de mortalidade chegava a 20%.

Fontes: OMS, Cambridge History of Medicine.


Uma nota sobre o diagnóstico histórico

Antes de encerrar, vale lembrar algo essencial para quem pesquisa genealogia: o diagnóstico médico nos séculos passados era impreciso por definição. Termos como “Moléstia Interna”, “Colapso”, “Febre” ou “Fraqueza” eram “gavetas” usadas quando o escrivão ou o médico simplesmente não sabiam — ou não tinham meios de saber — a causa exata da morte. Não tome a ausência de um diagnóstico claro como falta de informação: muitas vezes, é exatamente o oposto. É a honestidade de uma época que ainda não tinha as ferramentas que temos hoje.


Este conteúdo foi elaborado com base em dados históricos cumulativos, estimativas epidemiológicas e registros de organizações de saúde (OMS, CDC) e estudos científicos publicados em periódicos como Nature, The Lancet e Science. Os números para doenças antigas são estimativas fundamentadas em taxas de mortalidade históricas e populações da época.

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