Este artigo reúne as 13 doenças que mais mataram na história da humanidade, organizadas em ordem decrescente de impacto cumulativo. Para estruturar este estudo, cruzamos dados de periódicos revisados por pares (Nature, The Lancet, Science), relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS), dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), com o acervo documental da demografia histórica e registros paroquiais brasileiros.
Nota metodológica: doenças crônicas e endêmicas (como tuberculose e malária) tendem a acumular mais mortes ao longo dos séculos do que epidemias explosivas (como a Peste Negra ou a COVID-19), que são mais dramáticas, porém mais curtas. As posições 1 a 5 desta lista são as mais consensuais entre especialistas; a partir da posição 6, a ordem pode variar um pouco conforme o critério e a janela temporal usados na estimativa — por isso tratamos os números abaixo como estimativas históricas, não como contagens exatas.
1. Tuberculose (Mycobacterium tuberculosis)
- Estimativa histórica: mais de 1 bilhão de mortes nos últimos dois séculos, segundo compilações históricas.
- Transmissão: vias aéreas (gotículas respiratórias).
A tuberculose foi a principal causa de mortalidade crônica no Ocidente. Dados históricos do National Institutes of Health (NIH) indicam que a bactéria respondeu por cerca de 25% de todas as mortes de adultos na Europa durante o século XIX — uma em cada quatro pessoas adultas. No Brasil colonial e imperial, a doença se alastrou com facilidade nos centros urbanos e nas habitações coletivas, favorecida pela aglomeração e pela ausência de saneamento.
Para pesquisadores de genealogia: nos arquivos paroquiais e certidões de óbito civis (pós-1889), a enfermidade raramente aparece com o termo científico. Busque por:
- “Tísica” ou “Tísica Pulmonar”
- “Definhamento”, “Mal do Peito” ou “Fraqueza de Peito”
- “Héctica” ou “Febre Héctica”
Fontes: OMS, NIH / National Library of Medicine.

2. Varíola (Orthopoxvirus variolae)
- Estimativa histórica: 300 a 500 milhões de mortes apenas no século XX; estima-se que o acumulado histórico pode chegar a um total de 1 bilhão de mortes, embora seja impossível confirmar.
- Status: erradicada oficialmente pela OMS em 1980 — a única doença infecciosa humana eliminada por vacinação sistemática.
Além de devastar populações indígenas nas Américas a partir do século XVI, a varíola provocou crises sanitárias contínuas no Brasil até o início do século XX, servindo de estopim para a Revolta da Vacina (Rio de Janeiro, 1904). Uma característica a tornava particularmente temida: não fazia distinção social, atingindo imperadores e camponeses com a mesma eficiência.
Para pesquisadores de genealogia: em livros de sepultamento dos séculos XVIII e XIX, o termo mais comum no Brasil é “Bexigas” (ou “Bexigoso”), em referência às pústulas características da pele.

3. Malária (Plasmodium spp.)
- Estimativa histórica: Centenas de milhões de mortes acumuladas ao longo de milênios.
- Vetor: Mosquito fêmea do gênero Anopheles.
A malária acompanha a humanidade há pelo menos 50 mil anos. Para colonizadores e imigrantes que chegavam ao interior do Brasil no século XIX, ela era muitas vezes uma sentença de morte: sem imunidade adquirida, sucumbiam às “febres” em poucas semanas. O que a diferencia das demais doenças desta lista é sua constância — nunca produziu uma única pandemia devastadora, mas simplesmente nunca parou de matar, sobretudo crianças.
Para pesquisadores de genealogia: em inventários, óbitos de escravizados e livros de paróquias rurais, atente-se às seguintes anotações:
- “Maleita”
- “Sezão” ou “Febre de Sezões”
- “Febre Palustre” (relativa a pântanos/alagados)
- “Impaludismo”
Fonte: OMS, The Lancet Infectious Diseases.
Veja também: Causas de mortes antigas: o significado de termos médicos curiosos
4. Sarampo (Morbillivirus)
- Estimativa histórica: mais de 200 milhões de mortes nos últimos 150 anos.
- Mecanismo: altamente contagioso por aerossóis respiratórios.
Antes da vacina, desenvolvida em 1963, o sarampo matava cerca de 2,6 milhões de pessoas por ano em todo o mundo. Era praticamente inevitável: quase toda criança era infectada em algum momento, e uma parcela significativa não sobrevivia. Para quem pesquisa genealogia, o sarampo é uma explicação plausível para a alta mortalidade infantil recorrente em famílias antigas — quando entrava numa casa, podia levar vários filhos em poucos dias.
Para pesquisadores de genealogia: se a árvore genealógica revelar óbitos de múltiplos irmãos num intervalo de dias ou semanas, vale investigar surtos locais de sarampo ou difteria (crupe). Na documentação, o termo geralmente aparece com a grafia tradicional: “Sarampo”.
Fonte: OMS, Vaccine Knowledge Project (Oxford).
5. Peste Bubônica, a Peste Negra (Yersinia pestis)
- Estimativa histórica: cerca de 200 milhões de mortes (somando a Praga de Justiniano, a Peste Negra de 1347 e surtos modernos).
- Vetor: pulgas (Xenopsylla cheopis) de roedores infectados.
Em termos de impacto relativo, nenhuma doença da história chegou perto da Peste Negra: no século XIV, ela dizimou entre 30% e 50% da população da Europa continental. Embora associada sobretudo ao medievo europeu, a bactéria também atingiu portos brasileiros no fim do século XIX — surtos menores continuaram por séculos após a catástrofe medieval original.
Para pesquisadores de genealogia: registros medievais são raros no Brasil, mas em registros hospitalares e de cemitérios brasileiros da virada para o século XX (como o surto no porto de Santos e Porto Alegre, em 1899), a causa costuma aparecer como:
- “Peste Bubônica”
- “Bubão”
- “Febre Pestilencial”
Fonte: Encyclopedia Britannica, CDC.

6. Doenças diarreicas infecciosas
- Estimativa histórica: centenas de milhões de óbitos, concentrados na primeira infância.
- Etiologia: rotavírus, Escherichia coli, Shigella e parasitas gastrointestinais.
Diferente das epidemias que chegam com nome próprio e data marcada, as doenças diarreicas matam pela persistência. Antes do saneamento básico, da terapia de reidratação oral e dos antibióticos, a desidratação causada por infecções intestinais era a causa de morte mais comum no primeiro ano de vida em praticamente todo o mundo. Hoje, o Global Burden of Disease Study, publicado no The Lancet, estima entre 1,3 e 1,6 milhão de mortes por ano — majoritariamente crianças pequenas em regiões sem acesso a água tratada.
Guia para genealogistas: principal causa de mortalidade de crianças de até 7 anos registrada no Brasil Imperial e na Primeira República. Termos usuais:
- “Enterite” ou “Gastroenterite”
- “Desidratação”
- “Disenteria”
- “Moléstia intestinal” ou “Diarréia infantil”
Fontes: Global Burden of Disease Study, OMS, UNICEF.
7. Influenza Pandêmica / Gripe Espanhola (Influenza A – H1N1)
- Estimativa histórica: 50 a 100 milhões de mortes na pandemia de 1918–1919; mais de 150 milhões no histórico global cumulativo.
- Peculiaridade médica: alta letalidade em adultos jovens saudáveis (20–40 anos), associada à chamada tempestade de citocinas.
A Gripe Espanhola de 1918 é o evento pandêmico mais letal da história moderna: matou mais pessoas em 24 semanas do que a AIDS em 24 anos. No Brasil, chegou entre setembro e dezembro de 1918, colapsando os sistemas funerários e culminando na morte do presidente reeleito Rodrigues Alves, antes mesmo de tomar posse do segundo mandato.
Para pesquisadores de genealogia: identificável por picos atípicos de óbitos na mesma família no último trimestre de 1918. Descrições documentais incluem:
- “Congestão Pulmonar”
- “Influenza” ou “Gripe Epidêmica”
- “Pneumonia Gripal”
Fonte: CDC, National Library of Medicine.

8. HIV/AIDS
- Estimativa histórica: aproximadamente 40 a 45 milhões de mortes desde o final dos anos 1970.
- Mecanismo: destruição progressiva dos linfócitos T CD4+, levando à imunodeficiência adquirida.
A pandemia de HIV ganhou visibilidade nos anos 1980 e segue em curso. O vírus ataca progressivamente o sistema imunológico, tornando o corpo incapaz de combater infecções normalmente inofensivas — e continua sendo um grave problema de saúde pública, especialmente na África Subsaariana. Diferente das epidemias do passado, a resposta ao HIV foi transformada pela terapia antirretroviral (TARV), um marco da biomedicina contemporânea.
9. Cólera (Vibrio cholerae)
- Estimativa histórica: mais de 40 milhões de mortes ao longo de sete pandemias globais.
- Transmissão: ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes humanas.
A cólera era, essencialmente, uma doença da urbanização sem infraestrutura: quanto mais as cidades cresciam sem saneamento, mais ela matava. Sua velocidade era aterrorizante — um paciente podia estar saudável pela manhã e morto por desidratação extrema à noite. Por isso, os surtos de cólera funcionam como marcos históricos precisos em certidões de óbito: quando chegava a uma cidade, os registros paroquiais transbordavam em poucas semanas.
Para pesquisadores de genealogia: o Brasil viveu surtos severos na década de 1850 (notadamente a epidemia de 1855–1856). Busque nos livros paroquiais:
- “Vômitos” e “Câmaras”
- “Cólera-morbo”
- “Colerina”
Fonte: The Lancet, OMS
10. Cocoliztli
- Estimativa histórica: 12 a 15 milhões de mortes no México colonial (século XVI).
- Agente causal provável: Salmonella enterica (sorovar Paratyphi C), identificada via paleogenômica.
Esta é a doença menos conhecida da lista. O Cocoliztli foi uma série de epidemias que devastaram o México colonial após a conquista espanhola, matando entre 70% e 80% da população asteca que ainda havia sobrevivido às guerras e à varíola. Por muito tempo, sua causa permaneceu um mistério; um estudo de 2018 publicado na Nature Ecology & Evolution, usando análise de DNA antigo, apontou a Salmonella enterica (sorotipo Paratifi C) como principal responsável — provavelmente introduzida pelos próprios colonizadores europeus num ambiente sem imunidade prévia.
Fontes: Nature Ecology & Evolution (2018), CDC Emerging Infectious Diseases Journal.
11. COVID-19 (SARS-CoV-2)
- Estimativa histórica: 7 milhões de mortes confirmadas oficialmente; modelos de excesso de mortalidade calculam entre 20 e 30 milhões.
- Marco: Primeira grande pandemia global monitorada e sequenciada geneticamente em tempo real.
A pandemia mais recente desta lista trouxe algo novo: a velocidade com que desorganizou sistemas de saúde modernos e uma visibilidade sem precedentes de uma pandemia em tempo real, acompanhada por painéis públicos atualizados diariamente.
Fontes: OMS Coronavirus Dashboard, The Economist – Excess Mortality Model.

12. Tifo Epidêmico (Rickettsia prowazekii)
- Estimativa histórica: dezenas de milhões de mortes (o surto russo de 1918–1922, sozinho, matou aproximadamente 3 milhões).
- Vetor: piolho do corpo humano (Pediculus humanus humanus).
O tifo é transmitido por piolhos em condições de higiene precária e, por isso, acompanhou guerras, prisões e crises de fome — era literalmente chamado de “febre dos acampamentos”. Nas Guerras Napoleônicas, matou mais soldados franceses na retirada da Rússia do que o frio ou o exército inimigo. Não teve uma única grande pandemia, mas manteve presença constante por séculos na Europa, Ásia e África.
Para pesquisadores de genealogia: no Brasil, o termo popular frequente em documentos antigos é “Tabardilha”. Não deve ser confundido com a Febre Tifoide, uma doença completamente diferente (item 13).
Fontes: CDC, Microbiology Society.
Veja também: Onde encontrar registros de antepassados que morreram antes de 1900
13. Febre Tifoide (Salmonella enterica sorovar Typhi)
- Estimativa histórica: dezenas de milhões de mortes ao longo dos séculos.
- Transmissão: fecal-oral direta e indireta (água/alimentos).
Diferente do tifo transmitido por piolhos, a febre tifoide provocava febre prolongada, delírio e perfurações intestinais antes da introdução dos antibióticos modernos (como o cloranfenicol). Os próprios médicos do século XIX confundiam as duas doenças, já que os sintomas se sobrepõem (febre alta, delírio, manchas vermelhas na pele); a diferenciação só foi estabelecida com precisão em meados daquele século. Sem tratamento, a taxa de mortalidade chegava a 20%.
Guia para genealogistas: muitas vezes descrita como “Febre Contínua”, “Febre Nervosa” ou “Tifo Abdominal”.
Fontes: OMS, The Lancet Global Health.
Vocabulário médico arcaico em registros documentais
Ao pesquisar certidões de óbito civis e eclesiásticas anteriores a 1930, é fundamental ter cautela historiográfica. O diagnóstico médico da época não dispunha de exames laboratoriais ou radiológicos. Termos genéricos como “Moléstia Interna”, “Parada Cardíaca”, “Febre” ou “Fraqueza Geral” eram frequentemente usados como diagnósticos de exclusão ou declarações leigas de falecimento.
Metodologia e Fontes de Pesquisa
As projeções numéricas apresentadas foram consolidadas com base nos seguintes referenciais científicos e historiográficos:
- Relatórios Epidemiológicos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e CDC.
- Série histórica do Global Burden of Disease (IHME).
- Artigos de paleogenética e história da medicina publicados em Nature, The Lancet e Science.
Se você está tentando decifrar a causa de morte de um ancestral específico, também temos um guia com termos médicos curiosos usados em certidões antigas.



