Este artigo reúne as 13 doenças que mais mataram na história da humanidade, em ordem decrescente. Os dados são baseados em estudos epidemiológicos publicados em periódicos como Nature, The Lancet e Science, além de relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS), dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e do Instituto de Métricas de Saúde (IHME). Para doenças antigas, os números são, por necessidade, estimativas — mas são as mais sólidas disponíveis hoje.
Uma nota metodológica importante: doenças crônicas e endêmicas (como tuberculose e malária) tendem a acumular mais mortes ao longo dos séculos do que epidemias explosivas (como a Peste Negra ou a COVID-19), que são mais dramáticas, mas mais curtas. As posições 1 a 5 desta lista são as mais consensuais entre os especialistas; as posições 6 em diante variam um pouco dependendo do critério usado.
1. Tuberculose
Estimativa total: mais de 1 bilhão de mortes nos últimos dois séculos
Se existe uma doença que mereceria o título de “maior assassina silenciosa da história”, é a tuberculose. Conhecida como “a peste branca” ou “mal do peito”, ela não chegava em ondas de pânico como a cólera ou a varíola — ela ficava. Ano após ano, geração após geração, consumia suas vítimas lentamente, o que a literatura do século XIX romantizou com tragédia involuntária.
A tuberculose é causada pela bactéria Mycobacterium tuberculosis e se espalha pelo ar. Estimativas do National Institutes of Health (NIH) indicam que ela foi responsável por cerca de 25% de todas as mortes de adultos na Europa durante o século XIX — uma em cada quatro.
Para pesquisadores de genealogia: Este é o termo mais frequente em certidões brasileiras antigas. Procure por “Tísica”, “Tísica Pulmonar”, “Mal do Peito”, “Fraqueza” ou “Héctica”. Se um ancestral “definhava” ao longo de meses, a tuberculose é suspeita imediata.
Fonte: Nature, OMS, National Institutes of Health (NIH).

2. Varíola
Estimativa total: 300 a 500 milhões de mortes só no século XX; possivelmente mais de 1 bilhão na história
A varíola tinha uma característica que a tornava particularmente aterrorizante: ela não escolhia. Matava imperadores e camponeses com a mesma eficiência. Foi responsável pelo colapso demográfico das populações indígenas nas Américas após o contato com os europeus — um genocídio biológico de proporções inimagináveis. No Brasil, os surtos de varíola moldaram políticas de saúde pública até o início do século XX, culminando na famosa Revolta da Vacina de 1904.
O vírus foi erradicado em 1980 após uma campanha global de vacinação coordenada pela OMS. Até hoje, a varíola é a única doença humana a ter sido completamente eliminada.
Para pesquisadores de genealogia: Nos registros dos séculos XVIII e XIX, a causa da morte frequentemente aparece como “Bexigas” , uma referência direta às pústulas que cobriam a pele dos infectados.
Fonte: OMS, Lapham’s Quarterly.

3. Malária
Estimativa total: centenas de milhões mortes ao longo de milênios. Algumas estimativas chegam a falar em “metade de todos os humanos que já viveram”, embora os historiadores modernos trabalhem com números mais conservadores.
A malária é transmitida pelo mosquito Anopheles e tem acompanhado a humanidade por pelo menos 50 mil anos. Para os colonizadores e imigrantes que chegavam ao interior do Brasil no século XIX, ela era muitas vezes uma sentença de morte: sem imunidade adquirida, sucumbiam às “febres” em semanas.
O que a torna diferente das outras doenças desta lista é sua constância. Ela nunca explodiu em uma única pandemia devastadora; simplesmente nunca parou de matar, especialmente crianças.
Para pesquisadores de genealogia: Nos registros rurais brasileiros, procure por “Maleita”, “Sezão” (ou “Sezões”), “Febre Palustre” ou “Impaludismo”.
Fonte: OMS, Nature, History of Vaccines.
Veja também: Causas de mortes antigas: o significado de termos médicos curiosos
4. Sarampo
Estimativa total: cerca de 200 milhões de mortes nos últimos 150 anos
Antes da vacina, desenvolvida em 1963, o sarampo matava aproximadamente 2,6 milhões de pessoas por ano em todo o mundo. Era virtualmente inevitável: quase toda criança era infectada em algum momento, e uma parcela significativa não sobrevivia.
Para genealogistas, o sarampo é a principal explicação para a alta mortalidade infantil que aparece em quase todas as famílias antigas. Ele age rápido — quando entra em uma família, pode levar vários filhos em dias.
Para pesquisadores de genealogia: Geralmente aparece registrado como “Sarampo” mesmo. Atenção: se você encontrar vários filhos de um mesmo casal falecendo com dias ou semanas de diferença, o sarampo (ou a difteria) é o suspeito mais provável.
Fonte: OMS, Vaccine Knowledge Project (Oxford).
5. Peste Bubônica (Peste Negra)
Estimativa total: cerca de 200 milhões de mortes (somando a Praga de Justiniano, a Peste Negra medieval e os surtos do século XIX)
Em termos de impacto relativo, nenhuma doença da história chegou perto da Peste Negra: em apenas alguns anos no século XIV, ela eliminou entre 30% e 50% da população europeia. Cidades inteiras foram varridas. Aldeias abandonadas. A estrutura social, econômica e religiosa da Europa jamais voltou a ser a mesma.
Causada pela bactéria Yersinia pestis e transmitida por pulgas de ratos, ela não foi um evento único — surtos menores continuaram por séculos após a catástrofe medieval.
Para pesquisadores de genealogia: Registros medievais são raros no Brasil, mas em surtos mais tardios (como o de Porto Alegre em 1899) a causa pode aparecer como “Peste”, “Bubão” ou “Febre Pestilencial”.
Fonte: History of Vaccines, Encyclopedia Britannica.

6. Doenças diarreicas infecciosas
Estimativa histórica: dezenas a centenas de milhões (sem número consensual fechado)
Diferente das epidemias que chegam com nome próprio e data marcada, as doenças diarreicas matam pela persistência. Antes do saneamento básico, da terapia de reidratação oral e dos antibióticos, a desidratação causada por infecções intestinais era a causa de morte mais comum no primeiro ano de vida em praticamente todo o mundo.
Hoje, o Global Burden of Disease Study estima que ainda causem entre 1,3 e 1,6 milhão de mortes por ano — majoritariamente crianças pequenas em regiões sem acesso a água tratada.
Fontes: Global Burden of Disease Study (IHME); OMS; UNICEF.
7. Gripe Espanhola (Influenza)
Estimativa total: 50 a 100 milhões de mortos em 24 meses (1918–1919); 100 a 200 milhões somando todas as pandemias e gripe sazonal ao longo dos séculos
A Gripe Espanhola de 1918 é o evento pandêmico mais letal da história moderna. Para dar uma dimensão: ela matou mais pessoas em 24 semanas do que a AIDS matou em 24 anos. E, ao contrário da maioria das gripes, tinha uma peculiaridade perturbadora: matava preferencialmente jovens adultos saudáveis entre 20 e 40 anos — provavelmente por uma resposta imune exagerada do próprio organismo.
No Brasil, a pandemia vitimou milhares e ficou marcada também pela morte do presidente eleito Rodrigues Alves, que faleceu antes de tomar posse do seu segundo mandato.
Para pesquisadores de genealogia: Procure por um aumento súbito de óbitos na família entre outubro e dezembro de 1918. Nos registros, pode aparecer como “Influenza”, “Gripe Epidêmica” ou, nos casos de complicações, “Pneumonia” ou “Congestão Pulmonar”.
Fonte: CDC; OMS; Lapham’s Quarterly.

8. HIV/AIDS
Estimativa total: aproximadamente 40 a 45 milhões de mortes
A pandemia de HIV começou a ganhar visibilidade nos anos 1980 e ainda não terminou. O vírus ataca progressivamente o sistema imunológico, tornando o corpo incapaz de combater infecções que normalmente seriam inofensivas. Continua sendo um grande problema de saúde pública, especialmente na África Subsaariana.
Diferente das outras doenças desta lista, o HIV é uma crise do presente — e continua exigindo resposta global ativa.
Fonte: UNAIDS, OMS.
9. Cólera
Estimativa total: mais de 40 milhões de mortes (somando as 7 grandes pandemias desde 1817)
A cólera é uma doença aguda causada pela bactéria Vibrio cholerae, transmitida por água e alimentos contaminados. Ela era, essencialmente, uma doença da urbanização sem infraestrutura: quanto mais as cidades cresciam sem saneamento, mais a cólera matava.
Sua velocidade era aterrorizante: um paciente podia estar saudável pela manhã e morto por desidratação extrema à noite. Por isso, os surtos de cólera funcionam como marcos históricos muito precisos em certidões de óbito: quando ela chegava a uma cidade, os registros paroquiais transbordavam em poucas semanas.
Para pesquisadores de genealogia: Em períodos de epidemia (como a grande epidemia brasileira de 1855), procure por “Cólera-morbo” ou “Colerina” nos registros.
Fonte: The Lancet; OMS.
10. Cocoliztli
Estimativa total: até 15 milhões de mortes só no México, no século XVI
Esta é a doença menos conhecida desta lista, e talvez a mais trágica em termos de proporção. O Cocoliztli foi uma série de epidemias que devastaram o México colonial após a conquista espanhola, matando entre 70% e 80% da população asteca que ainda havia sobrevivido às guerras e à varíola.
Por muito tempo, sua causa permaneceu um mistério. Um estudo de 2018 publicado na Nature Ecology & Evolution, usando análise de DNA antigo, apontou a Salmonella enterica (sorotipo Paratifi C) como principal responsável — provavelmente introduzida pelos próprios colonizadores europeus em um ambiente sem nenhuma imunidade prévia.
Fontes: Nature Ecology & Evolution, CDC, Emerging Infectious Diseases Journal.
11. COVID-19
Estimativa total: 7 a 30 milhões (7 milhões de mortes confirmadas; estimativa de excesso de mortalidade chega a 30 milhões)
A pandemia mais recente desta lista, causada pelo vírus SARS-CoV-2. Embora seu impacto global tenha sido imenso e imediato, o número absoluto de mortes ainda é significativamente menor que os grandes assassinos históricos de longa duração.
O que a COVID-19 trouxe de novo foi a velocidade com que desorganizou sistemas de saúde modernos e a visibilidade sem precedentes de uma pandemia em tempo real.
Fontes: OMS, The Economist (Excess Death Model), Our World in Data.

12. Tifo (Typhus Exantemático)
Estimativa total: dezenas de milhões de mortes (o surto russo de 1918–1922, sozinho, matou aproximadamente 3 milhões)
O tifo é transmitido por piolhos em condições de higiene precária, e, por isso, sempre acompanhou guerras, prisões e crises de fome. Era literalmente chamado de “febre dos acampamentos”. Nas Guerras Napoleônicas, matou mais soldados franceses na retirada da Rússia do que o frio ou o exército inimigo.
Não teve uma única grande pandemia, mas uma presença constante por séculos na Europa, Ásia e África.
Para pesquisadores de genealogia: Atenção ao termo “Tabardilha” nos registros antigos — era o nome popular para o tifo exantemático no Brasil. Não confunda com “Febre Tifoide”, que é uma doença completamente diferente (ver abaixo).
Fontes: History of Vaccines, Microbiology Society, The Lancet.
Veja também: Onde encontrar registros de antepassados que morreram antes de 1900
13. Febre Tifoide
Estimativa total: dezenas de milhões de mortos
Apesar do nome parecido, a Febre Tifoide e o Tifo são causados por bactérias diferentes e transmitidos de formas distintas. A Febre Tifoide é causada pela Salmonella typhi e se espalha pela água e alimentos contaminados, não por piolhos.
Essa confusão não é erro seu: os próprios médicos do século XIX as confundiam, porque os sintomas se sobrepõem (febre alta, delírio, manchas vermelhas na pele). A diferenciação só foi estabelecida com precisão em meados do século XIX. Sem tratamento, a taxa de mortalidade chegava a 20%.
Fontes: OMS, Cambridge History of Medicine.
Uma nota sobre o diagnóstico histórico
Antes de encerrar, vale lembrar algo essencial para quem pesquisa genealogia: o diagnóstico médico nos séculos passados era impreciso por definição. Termos como “Moléstia Interna”, “Colapso”, “Febre” ou “Fraqueza” eram “gavetas” usadas quando o escrivão ou o médico simplesmente não sabiam — ou não tinham meios de saber — a causa exata da morte. Não tome a ausência de um diagnóstico claro como falta de informação: muitas vezes, é exatamente o oposto. É a honestidade de uma época que ainda não tinha as ferramentas que temos hoje.
Este conteúdo foi elaborado com base em dados históricos cumulativos, estimativas epidemiológicas e registros de organizações de saúde (OMS, CDC) e estudos científicos publicados em periódicos como Nature, The Lancet e Science. Os números para doenças antigas são estimativas fundamentadas em taxas de mortalidade históricas e populações da época.



