Seja lendo um romance de época, ouvindo histórias dos avós ou explorando documentos antigos, é comum nos depararmos com nomes de doenças que soam estranhos ou até poéticos, como “tísica”, “hidropsia” ou “frouxos”. Mas o que esses termos realmente significavam?
Durante séculos, a medicina não contava com diagnósticos precisos como os de hoje. Muitas vezes, o que era registrado não era a doença em si, mas o sintoma mais visível, a manifestação do sofrimento ou um termo popular consagrado pela comunidade.
Para ajudar você a decifrar esse vocabulário do passado, preparamos um dicionário de causa mortis comentado – com as principais doenças e causas de morte de antigamente. Descubra o que a medicina queria dizer com essas expressões curiosas.
1. Tísica (ou Tísica Pulmonar)
O que é hoje: Geralmente corresponde à Tuberculose.
O termo vem do grego phthisis, que significa “consumir-se”. A tísica era uma das doenças mais temidas do século XVIII e XIX. Embora fosse muito associada a poetas e à vida urbana insalubre (cortiços, pouca ventilação), ela também era devastadora no meio rural.
Quando um registro menciona “tísica”, ele descreve uma doença de evolução lenta, marcada por emagrecimento extremo, tosse persistente com sangue e febre baixa contínua. Era, literalmente, uma enfermidade que consumia o corpo ao longo do tempo.
- Sinônimos nos registros: “Moléstia do peito”, “doença do pulmão”, “fraqueza do peito” ou “peito fraco”.
Importância na pesquisa: Óbitos por tísica costumavam ocorrer em adultos jovens (20-40 anos) e, muitas vezes, indicam que outros membros da mesma família podem ter falecido da mesma causa pouco tempo depois, dada a alta contagiosidade em ambientes fechados.
2. Hidropsia
O que é hoje: Não é uma doença, mas um sinal clínico grave, o edema (retenção de líquidos). Geralmente indicava insuficiência cardíaca, doenças hepáticas – como cirrose – ou falência renal.
Antes de exames laboratoriais ou de imagem estarem disponíveis, o diagnóstico se baseava no que era visível. Quando uma pessoa apresentava inchaço generalizado, pernas muito edemaciadas ou a chamada “barriga d’água”, o termo usado era hidropsia — literalmente, “água no corpo”.
Importância na pesquisa: A presença de hidropsia em um registro de óbito sugere uma doença crônica. O antepassado provavelmente viveu com limitações físicas e saúde frágil por meses ou anos antes do falecimento.
3. Mal de sete dias
O que é hoje: Tétano neonatal.
Essa é uma das causas de morte infantil mais frequentes nos registros antigos brasileiros. O “mal de sete dias” ocorria quando o recém-nascido era infectado pela bactéria do tétano através do coto umbilical. A infecção acontecia geralmente por falta de higiene, uso de instrumentos não esterilizados (tesouras, facas) ou aplicação de substâncias caseiras inadequadas no umbigo (como teia de aranha, pó de café ou fumo) durante ou após o parto.
A doença causava rigidez muscular severa (trismo), impedindo o bebê de mamar, e levava ao óbito por volta do sétimo dia de vida — daí a origem do nome.
Importância na pesquisa: Encontrar vários filhos falecidos de “mal de sete dias” na mesma família é um forte indicativo das condições sanitárias precárias da época e da ausência de assistência médica profissional, mesmo em famílias estruturadas.
4. Frouxos (ou Fluxos)
O que é hoje: Termo genérico que geralmente indicava diarreias graves (disenteria) ou hemorragias internas.
A palavra “frouxo” ou “fluxo” em registros antigos – especialmente do século XVIII e XIX – indicava que o corpo estava expelindo fluidos de forma descontrolada. Essas mortes eram muito comuns em épocas de saneamento inexistente, onde o consumo de água de poços e rios contaminados era frequente.
Variações comumente encontradas:
- Fluxo de ventre: diarreias infecciosas severas, muitas vezes fatais por desidratação (cólera, infecções bacterianas ou parasitárias).
- Fluxo de sangue: poderia indicar hemorragias digestivas, uterinas ou complicações pós-parto.
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5. Febres (febre contínua, febre maligna, febre perniciosa)
O que é hoje: pode corresponder a malária, febre tifóide, febre amarela, infecções bacterianas graves ou outras doenças infecciosas.
Durante séculos, a febre foi vista como uma doença em si, e não como um sintoma. Assim, muitos registros trazem apenas “febres” como causa mortis.
- Maleita ou Sezão: Termos muito comuns em áreas rurais do Brasil para designar a Malária.
- Febre Puerperal: Infecção grave pós-parto que vitimava muitas mulheres.
Importância na pesquisa: A recorrência de “febres” em registros de uma mesma localidade e época pode indicar surtos epidêmicos ou que a região era alagadiça e propícia a mosquitos transmissores.
6. Colapso
O que é hoje: Parada cardíaca ou insuficiência cardíaca aguda. Também usado relacionado a ferimentos graves.
Muito comum em registros do início do século XX. O termo “colapso” funcionava como uma “gaveta” para mortes súbitas onde o coração parava, mas não se sabia exatamente a causa primária.
Além disso, quando utilizado após menção a ferimentos, podia estar encerrando um relato para não detalhar a violência.
7. Apoplexia (ou Apoplesia)
O que é hoje: Geralmente corresponde ao AVC (Acidente Vascular Cerebral) ou Derrame.
Este é um termo clássico em registros antigos para descrever uma morte súbita acompanhada de perda de consciência e paralisia. O termo vem do grego para “cair com violência” ou “ser derrubado”.
- Sinônimos nos registros: “Congestão cerebral” ou “Ictus”.
Importância na pesquisa: A Apoplexia geralmente era registrada como uma morte rápida ou repentina, frequentemente em pessoas de idade mais avançada.
8. Opilação (ou Amarelão)
O que é hoje: Geralmente corresponde à Ancilostomose (infecção por parasitas intestinais) e à anemia profunda decorrente dela.
Imortalizada na literatura por Monteiro Lobato por meio do personagem Jeca Tatu, a opilação foi um flagelo no Brasil rural. O termo vem da ideia de “obstrução” (do latim oppilare). A doença deixava o indivíduo pálido, amarelado, desanimado e com desejos estranhos de comer terra (geofagia) pela falta de ferro.
Importância na pesquisa: É uma causa de morte muito comum em registros de trabalhadores rurais e escravizados. A presença constante deste termo em uma região indica falta de saneamento básico e contato direto e desprotegido com o solo.
9. Bexigas
O que é hoje: Varíola.
Este termo confunde muitos pesquisadores iniciantes, que pensam se tratar de problemas urinários. No entanto, “bexigas” referia-se às pústulas (bolhas) características que a varíola deixava na pele. Foi uma das doenças mais letais da história até sua erradicação.
- Sinônimos nos registros: “Variolose” ou apenas “As bexigas”.
Importância na pesquisa: A varíola vinha em ondas epidêmicas. Se você encontrar um antepassado falecido de “bexigas”, vale a pena olhar as datas de óbito das páginas vizinhas no livro de registro; é muito provável que encontre dezenas de outros óbitos pela mesma causa em um curto período (semanas ou meses), indicando um surto local.
10. Mal Caduco (ou Gota Coral)
O que é hoje: Epilepsia.
Antigamente, a epilepsia era cercada de estigma e superstição, muitas vezes confundida com possessão espiritual ou loucura. O termo “caduco” vem de “cair”, referindo-se aos ataques em que a pessoa caía ao chão em convulsão. Já “Gota Coral” é um termo ainda mais antigo, derivado da crença medieval de que a doença era causada por uma “gota” de humor viciado caindo no cérebro ou coração.
Importância na pesquisa: Muitas vezes, a causa mortis não era a epilepsia em si, mas as consequências de um ataque, como afogamentos, quedas graves ou queimaduras (ao cair sobre fogueiras ou fogões a lenha durante uma crise).
11. Garrotilho
O que é hoje: Crupe (Laringotraqueobronquite) ou Difteria.
Era uma doença aterrorizante para os pais, pois afetava principalmente crianças pequenas. O nome “garrotilho” faz referência à sensação de estrangulamento (como no garrote vil). A infecção causava um inchaço na garganta e a formação de placas que impediam a respiração, levando a criança à asfixia.
Importância na pesquisa: Assim como o “mal de sete dias”, o garrotilho explica muitas mortes na primeira infância (2 a 10 anos), frequentemente dizimando vários irmãos em uma mesma família em questão de dias devido ao contágio.
Por que os termos eram tão vagos?
Esses termos, embora hoje pareçam imprecisos, faziam sentido dentro do conhecimento médico e administrativo da época. Até meados do século XX, especialmente no interior, quem atestava o óbito muitas vezes era o padre, o escrivão ou uma testemunha leiga, baseando-se apenas no relato da família (“ele estava com tosse”, “ela estava inchada”).
Mesmo quando havia médicos, o conhecimento científico da época classificava doenças pelos sintomas observáveis, e não pelos agentes causadores (bactérias, vírus, tumores), que muitas vezes ainda eram desconhecidos pela ciência.
Além disso, muitas vezes a família relatava uma causa ‘socialmente aceitável’. Cercadas de tabus, mortes por sífilis ou suicídio, por exemplo, eram frequentemente mascaradas nos registros como ‘ataque cardíaco’ ou ‘congestão’ para evitar escândalos ou permitir o enterro em solo sagrado.
Conclusão
Decifrar causas mortis antigas não é apenas um exercício de curiosidade histórica. É um ato de empatia e compreensão do passado.
Quando traduzimos “tísica”, “apoplexia” ou “mal de sete dias”, deixamos de enxergar apenas uma palavra irreconhecível em um papel amarelado. Passamos a entender melhor a realidade humana da época estudada.
Compreender essas causas nos ajuda tanto a reconstruir histórias mais humanas quanto a valorizar ainda mais o caminho percorrido por aqueles que vieram antes de nós.


