Aprender como ler documentos antigos é o maior desafio após encontrar aquele registro de batismo do seu trisavô em um livro paroquial de 1780. A emoção da descoberta pode virar frustração ao notar que o texto parece um código ilegível, cheio de riscos e borrões.
Essa arte de decifrar escritas antigas chama-se Paleografia. Para o genealogista, ela é o “superpoder” que transforma garranchos em história familiar. Com as regras básicas e o treino ocular que apresentamos abaixo, o “ilegível” finalmente começará a falar.
1. O formato das letras: por que a caligrafia antiga é diferente?
A maior armadilha para o iniciante é confiar na intuição moderna. A caligrafia dos escrivães e padres (como a escrita processual ou humanística cursiva) seguia padrões que hoje nos confundem.
O Caso do “S” Longo, parecido com o “F”
Até o início do século XIX, a letra “s” minúscula, no início ou meio das palavras, era escrita de forma alongada.
- Como identificar: Se você ler “fouza” ou “fanto”, a tradução correta é Souza e Santo.
- Dica: O “s” redondo (como o nosso atual) era usado apenas no final das palavras.
O intercâmbio entre I/J e U/V
No português antigo, essas letras eram frequentemente intercambiáveis, herdando o uso do latim:
- I e J: “Jesus” surge como Iesus; “Janeiro” como Ianeiro. O Y também substituía o I (ex: Freyre).
- U e V: “Um” pode estar escrito como Vm. “Oliveira” pode aparecer como Oliueira.
Consoantes Duplas e o “H” Intruso
Era comum duplicar consoantes por estética ou para indicar ênfase, além do uso assistemático do “H”:
- Duplicação: Anttonio (Antônio), Mello (Melo), Vasconcellos.
- O “ff” inicial: Dois “f” minúsculos no início da palavra representam um F maiúsculo (ex: ffrancisco).
- Ortografia Fonética: Sem gramática normativa, escrevia-se como se falava. É comum ver a troca de V por B (ex: Vatizou em vez de Batizou).

Dica Visual: Observe a imagem acima. Está difícil ler o texto central? Olhe para a margem esquerda. Os padres costumavam escrever o nome da criança ou dos pais em destaque na margem para facilitar a busca. Em “garranchos” difíceis, as anotações nas margens são a sua salvação!
2. Tabela de Abreviações Comuns em Registros Paroquiais
Como o papel e a tinta eram caros, os escrivães abreviavam quase tudo. Dominar esses sinais é essencial para a leitura de manuscritos antigos. Decore estas; elas aparecem em 90% dos registros católicos:
| Abreviatura | Significado | Contexto Comum |
| b.tiz | Batizou | Verbo principal que inicia a ação nos registros paroquiais |
| Cap.m / Alf.es | Capitão / Alferes | Patentes militares comuns em antepassados de elite |
| d.o / d.a | Dito / Dita | Referência a um nome ou local mencionado anteriormente |
| f.º / f.ª | Filho / Filha | Essencial para identificar filiação e linhagem |
| Fr. | Frei / Freire | Título religioso ou parte do sobrenome |
| id.e | Idade | Frequentemente seguido pelo número de anos (ex: de id.e de 20 annos) |
| leg.º / leg.ª | Legítimo / Legítima | Indica se o filho nasceu de um casamento oficializado pela Igreja |
| m.to | Muito | Advérbio usado em descrições ou datas (ex: m.to honrado) |
| m.er / m.or | Mulher / Mor (Maior) | Pode indicar a esposa ou um cargo (ex: Alferes m.or) |
| n.al | Natural | Indica o local de nascimento do indivíduo |
| N.S. | Nossa Senhora | Referência a santas, igrejas ou nomes próprios (ex: Maria de N.S.) |
| p.e / p.es | Padre / Padres | Identificação do celebrante ou parentes clérigos |
| p.p. | Próximo passado | Usado em datas (ex: dia 10 do mez p.p. para indicar o mês anterior) |
| par.º / par.ª | Parocho / Parochia | Identifica o padre da freguesia ou a própria paróquia |
| S.ra | Senhora | Tratamento respeitoso para mulheres |
| test.ª | Testemunha | Introduz as pessoas que presenciaram o ato |
| u.º / v.ª | Viúvo / Viúva | Estado civil, crucial para identificar casamentos anteriores |
| Xpo / Xpóvão | Cristo / Cristóvão | Nomes e invocações religiosas |
O Sinal do Til (~) e o Traço de Suspensão
O til sobre uma letra quase sempre indica que um “m” ou “n” foi omitido, ou que a palavra foi encurtada.
- Q~ = Quem ou Que.
- Jua~ = Juan ou João.
- Com~ = Comungou (em notas nas margens).
Alerta de Data: O Perigo do “p.p.”
Um dos erros mais comuns na transcrição de documentos antigos ocorre com a abreviatura p.p. (próximo passado). Quando um escrivão escreve, por exemplo, “aos 10 de Janeiro do p.p.”, ele não está se referindo a janeiro daquele ano, mas sim ao mês passado (dezembro do ano anterior). Ignorar esse detalhe pode fazer você registrar o nascimento ou casamento de um antepassado com um ano inteiro de diferença. Fique atento: sempre que encontrar “p.p.”, olhe para o mês anterior no calendário.
3. Tecnologia a favor da Genealogia: ferramentas de análise
Antes de desistir de uma imagem desbotada, use recursos digitais para melhorar a legibilidade:
- Inversão de Cores: Ver letras brancas em fundo preto (modo negativo) destaca traços que a tinta marrom esconde no papel escurecido.
- Ajuste de Contraste: Aumentar o contraste ajuda a separar a tinta do “ruído” do papel.
- Cuidado com o “Sangramento”: Se encontrar letras espelhadas, ignore-as; é apenas a tinta do verso da folha que vazou (o efeito bleed-through).
- Inteligência Artificial ajuda, mas nem sempre: A IA ainda costuma falhar muito ao ler manuscritos antigos. Aproveite-a para pedir sugestões de transcrição como apoio; ou para melhorar o contraste das imagens. Porém, tenha cuidado para não acreditar em falsas transcrições que podem parecer corretas e não são. Seu olhar humano e o contexto genealógico são insubstituíveis.

5. Dicas práticas para decifrar textos difíceis
Quando você travar em uma palavra, não tente adivinhar olhando fixamente para ela. Use a lógica:
Use a “Lei do Contexto”
Os registros paroquiais são formulários repetitivos. Se você conhece a estrutura, a palavra difícil se torna óbvia:
- Batismo: Data -> Igreja -> Padre -> Nome da Criança -> Pais -> Avós -> Padrinhos.
- Exemplo: “Aos vinte dias do mês de…” -> A próxima palavra tem que ser um mês. Se parece com “VBRO”, deve ser Outubro ou Novembro, jamais “Janeiro”. Se parece com “9bro”, é Novembro (Nove-bro). Se parece com “8bro”, é Outubro.
- Se a palavra está antes do nome da criança, provavelmente é “filho de” ou “natural de”.
Veja também: quando a documentação dos nossos antepassados passou a ser obrigatória e padronizada
Compare letras conhecidas
Procure no mesmo documento uma palavra fácil de ler (como “Deus”). Veja como o padre desenhou a letra “D”. Agora, use esse desenho como referência para identificar a mesma letra em nomes de pessoas ou locais desconhecidos.
Atenção aos números
Os números nem sempre eram escritos por extenso.
- O número 1: Muitas vezes parece um “j” ou um “i” longo.
- O número 5: Em documentos do séc. XVII e XVIII, pode parecer um “h” invertido ou uma foice.
- Datas abreviadas: “17br.o” = Setembro (7 + bro). “10br.o” = Dezembro.
Transcreva Exatamente como Vê
Ao anotar, mantenha a ortografia original primeiro. Se está escrito “Jozé”, escreva “Jozé”. Modernize apenas nas suas anotações finaisou na árvore genealógica. Isso evita que você altere o significado ou perca pistas importantes.
Conclusão: a paleografia como exercício de paciência
A leitura de documentos antigos é um músculo que se fortalece com o treino. Se um registro parece impossível hoje, salve-o e volte a ele após ler outros dez. O seu cérebro precisa de repertório visual.


