Piscinas-espelho do National September 11 Memorial em Nova York, com nomes das vítimas gravados em bronze ao redor

Genealogia Genética Forense identifica vítima do 11 de Setembro quase 25 anos depois dos atentados

Quase 25 anos após os ataques ao World Trade Center, uma nova ferramenta da genealogia genética permitiu identificar mais uma vítima daquele que é considerado o esforço de identificação forense mais complexo da história dos Estados Unidos. O caso, anunciado em 24 de agosto de 2026 pela prefeitura de Nova York e pelo Gabinete do Médico Legista da cidade (OCME, na sigla em inglês), marca a primeira vez que a técnica conhecida como FIGG (Forensic Investigative Genetic Genealogy, ou Genealogia Genética Forense Investigativa) é usada com sucesso para identificar uma vítima do 11 de Setembro.

Para quem acompanha ou pratica pesquisa genealógica, o episódio é um exemplo raro e concreto de como as mesmas técnicas usadas por amadores para reconstruir árvores familiares — cruzamento de testes de DNA, bancos de dados genealógicos e pesquisa documental — também sustentam hoje um dos trabalhos forenses mais delicados já realizados.

O que mudou na identificação das vítimas do WTC

Desde 2001, o OCME de Nova York trabalha de forma contínua para identificar os restos mortais recuperados no local dos ataques, que mataram 2.753 pessoas na cidade (2.977 no total, contando os outros locais atingidos naquele dia). Ao longo de quase um quarto de século, a maior parte dessas identificações foi feita por meio de análises de DNA comparadas a amostras de referência fornecidas por familiares das vítimas.

O problema é que uma parcela significativa dos fragmentos recuperados está severamente degradada pelo calor, pela pressão e pelo colapso das torres — o que inviabiliza as técnicas convencionais de STR (Short Tandem Repeats). É justamente nesse grupo de perfis “sem correspondência” que a nova técnica passou a ser aplicada.

Com a identificação anunciada em agosto de 2026, o número total de vítimas reconhecidas chegou a 1.654. Ainda assim, cerca de 1.099 pessoas — perto de 40% do total de mortos no WTC — permanecem sem identificação formal.

Como funciona a FIGG na prática

A Genealogia Genética Forense Investigativa (FIGG) combina duas frentes que qualquer pesquisador de genealogia reconhece: a análise genética e a investigação de árvores familiares. Na prática, o processo funciona de forma parecida com o que qualquer pessoa faz ao testar seu próprio DNA em busca de parentes — só que aplicado a um contexto forense.

Ela une sequenciamento genômico de alta densidade à pesquisa arquivística reversa. Enquanto o método forense tradicional busca uma correspondência exata (1:1), a FIGG mapeia graus de parentesco distantes (primos de 2º a 4º grau) para reconstruir a linhagem ascendente até encontrar um ancestral comum.

De forma resumida, as etapas são:

  1. Extração e sequenciamento do DNA encontrado nos restos mortais, usando técnicas mais sensíveis do que as comparações tradicionais de perfil genético. Em vez de analisar apenas dezenas de marcadores STR, a técnica utiliza Sequenciamento Genômico de Nova Geração (NGS/SNP), que lê centenas de milhares de SNPs (polimorfismos de nucleotídeo único), viáveis mesmo em DNA fragmentado.
  2. Busca por correspondências genéticas em bancos de dados genealógicos públicos, à procura de parentes distantes da vítima não identificada. O arquivo gerado é submetido a bases genealógicas que aceitam consultas forenses mediante consentimento — como GEDmatch PRO e FamilyTreeDNA, as duas plataformas mais usadas nesse tipo de investigação nos EUA —, localizando segmentos compartilhados de DNA (centimorgans – cM). As fontes oficiais deste caso específico não informaram qual banco de dados foi utilizado pelo NYPD.
  3. Construção de árvores genealógicas a partir dessas correspondências, cruzando parentesco genético com registros civis, históricos familiares e outras fontes documentais.
  4. Confirmação forense, em que a possível identidade levantada pela investigação genealógica é validada pelo OCME por meio de DNA ou outras metodologias forenses tradicionais. A FIGG apenas gera a hipótese de identidade. A confirmação legal exige que o OCME colete uma nova amostra de referência de um parente próximo da pessoa apontada pela árvore para validação formal.

Esse último passo é essencial: a genealogia genética não substitui a confirmação científica, ela gera pistas de identificação que depois precisam ser comprovadas com rigor forense. É a mesma lógica, aliás, que orienta o uso responsável de plataformas de cruzamento de DNA no universo da genealogia — como explicamos em detalhe no nosso guia sobre como cruzar dados de DNA entre plataformas usando o GEDmatch.

O caso mais recente

A vítima identificada em agosto de 2026 é uma mulher adulta cujo nome foi mantido em sigilo a pedido da família. A identificação resultou de uma colaboração entre o OCME e o Esquadrão de Genealogia Genética Investigativa do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD), que reúne a expertise genealógica necessária para reconstruir as árvores familiares a partir dos perfis genéticos.

Segundo o médico legista-chefe de Nova York, Dr. Jason Graham, o ataque ao World Trade Center foi tanto o massacre mais letal da história dos Estados Unidos quanto o esforço de identificação forense mais complexo já enfrentado pela instituição. Para ele, a possibilidade de aplicar inovações científicas a esse trabalho representa uma forma de manter o compromisso com as famílias que ainda aguardam respostas.

A antropóloga forense do OCME, Dra. Jennifer Odien, destacou que a técnica não se aplica a todos os casos, mas que existem hoje 47 perfis genéticos sem correspondência com amostras de referência que poderão ser analisados por esse novo método — o que abre uma nova frente de esperança para dezenas de famílias.

Além dessa nova identificação, o OCME confirmou também três outros vínculos de restos mortais a vítimas já identificadas anteriormente, graças à FIGG, a novas amostras de referência obtidas com familiares e à retestagem contínua de material recolhido desde 2001.

Por que isso importa para quem pesquisa a própria história familiar

O caso de Nova York ilustra, em escala forense, um princípio que vale para qualquer pesquisa genealógica: DNA sozinho raramente conta a história completa. É a combinação entre o dado genético e a investigação documental — certidões, registros civis, árvores construídas a partir de parentes distantes — que transforma uma correspondência genética em uma identidade confirmada.

Esse mesmo princípio é a base de ferramentas de cruzamento de dados genéticos como o GEDmatch, cada vez mais usadas por pesquisadores de genealogia no Brasil para conectar resultados de diferentes testes comerciais (como Genera, MyHeritage e AncestryDNA) e encontrar parentes que os testes isolados não indicariam.

Nomes das vítimas gravados em bronze no Memorial 11 de Setembro em Nova York, com bandeiras dos EUA e flores deixadas em homenagem
Bandeiras e flores deixadas junto aos nomes gravados no Memorial 11 de Setembro, em Nova York, em homenagem às vítimas dos atentados de 2001. Foto: 9/11 Memorial & Museum.

Perguntas frequentes

O que é FIGG (Forensic Investigative Genetic Genealogy)?
É uma técnica forense que combina sequenciamento avançado de DNA com investigação genealógica em bancos de dados públicos, usada para gerar pistas sobre a identidade de restos mortais não identificados, que depois são confirmadas por métodos forenses tradicionais.

Quantas vítimas do 11 de Setembro já foram identificadas?
Até agosto de 2026, 1.654 das 2.753 vítimas mortas no World Trade Center haviam sido identificadas oficialmente pelo Gabinete do Médico Legista de Nova York. Cerca de 1.099 pessoas, o equivalente a 40% do total, ainda não foram identificadas.

Essa foi a primeira vez que a genealogia genética foi usada em casos do 11 de Setembro?
Segundo o OCME, esta é a primeira identificação de uma vítima do WTC obtida por meio desta tecnologia específica de genealogia genética forense investigativa, embora a técnica já seja usada há alguns anos para solucionar outros casos criminais e de identificação de restos mortais nos Estados Unidos.

Qual a diferença entre a genealogia genética forense e a genealogia genética usada por pesquisadores amadores?
O princípio técnico é o mesmo — cruzar DNA com investigação de árvores familiares —, mas no contexto forense o objetivo é identificar uma pessoa específica a partir de restos mortais, e qualquer pista gerada precisa obrigatoriamente ser confirmada por métodos forenses adicionais antes de ser considerada uma identificação oficial.

A genealogia genética substitui o teste tradicional de DNA forense?
Não. A genealogia genética atua como uma ferramenta investigativa de direcionamento. O laudo de identificação oficial exige sempre a contraprova por metodologias forenses tradicionais comparadas a parentes diretos.

Fontes

Este artigo foi apurado a partir de comunicado oficial da Prefeitura de Nova York e de reportagens publicadas por O Globo e R7, com contextualização e explicações técnicas sobre genealogia genética elaboradas pela equipe do Genealog.ia.br.

Por Laine Sousa. Jornalista e pesquisadora de genealogia brasileira. Pesquisa registros de famílias da Bahia, Minas Gerais, Sergipe e Pernambuco há anos. Todo conteúdo publicado no Genealog.ia.br é verificado em fontes primárias e revisado editorialmente. Saiba mais.

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